Era a felicidade que morava ali, anunciava a placa de madeira pendurada no portão. Haviam se casado recentemente, no papel e na igreja. Pelos cantos, cafeteiras e liquidificadores sem nota fiscal aguardavam um desfecho.
- Antes tivessem me dado bandejas, nunca são demais! Reclamava a moça da falta de criatividade de amigos e parentes enquanto preparava a janta para o marido.
Conheceram-se um ano atrás, na festa da cidade. Ela, acompanhada das amigas, esconderia algumas risadas por trás do algodão-doce e andaria na roda gigante. Ele, em sua bela farda azul-marinho, gastaria o soldo em vodka e mulheres da vida.
Entenderam-se. Três meses depois estavam noivos. Um mês atrás, casados.
Da cozinha, ela o viu chegar, mais cedo que de costume. Entrou sério, deu dois passos, beijou-lhe a testa e disse:
- Vou à guerra.
E foi.
A felicidade tem bicho carpinteiro, não se sossega. Pegou a mala, colocou a viola no ombro e foi-se embora junto com o moço. Não fosse a placa na entrada, ninguém acreditaria que ela havia passado um dia por aquela casa.
A moça chorou, sofreu, quis morrer. Mas o tempo é xarope pra quase tudo. Resignou-se. Passava os dias preparando a janta, acreditando que ele voltaria mais cedo novamente, com a felicidade a tiracolo.
A alma se assenta, mas o corpo não sabe esperar. Ela resistia às sucessivas investidas que uma mulher de seu porte costuma receber. Não lhe passava pela cabeça cogitar qualquer hipótese de traição, mas as coisas estavam se complicando. Até mesmo tarefas cotidianas lhe pareciam agora extremamente sensuais. Criou um súbito interesse por pepinos e cenouras. Demorava-se escolhendo os legumes no supermercado, tinha predileção pelos maiores e mais rígidos.
Seu comportamento começava a chamar a atenção. Preocupadas, as amigas forneciam-lhe todo o tipo de pornografia. Ela já havia se cansado de assistir filmes eróticos sem sucesso algum. Naquele dia, porém, a cidade sentia os sinais da evolução dos tempos e agora oferecia nos cinemas a exibição de filmes adultos em três dimensões. O desespero é quente. Foi convencida.
Sentada na poltrona, observou o ator, um negro do tamanho de um armário, com extrema atenção. Ousou flertar. Trocaram olhares maliciosos. Ela já não se escondia atrás de algodões-doces. Seduzido, ele veio. Podia tocá-lo, sentir seu cheiro. Era real. Arrancou a roupa e se entregou em todas as dimensões para aquela experiência mística.
Saiu do cinema realizada. Como era possível aquilo? Vivia numa ficção científica que escapava a sua compreensão, mas não aos seus sentidos.
Meses depois, quando se viu grávida, não teve dúvidas de quem era o pai da criança: negro-armário.
Trabalhava na cozinha e cuidava do bebê, quando, mais tarde, seu marido chegou. Não trazia a felicidade com ele, certamente andaram afastados durante todo esse tempo. Talvez nem se reconhecessem mais. Deu dois passos e encontrou o menino. Sentou-se à mesa e jantou. Ouviu a longa história. Deu um beijo na testa da sua mulher e abraçou o seu filho.
Havia aprendido a acreditar em tanta coisa no último ano que, aos seus olhos, aquele menino era uma verdade boa. Até lembrava-lhe, vagamente, a antiga moradora daquela casa que a placa anunciava no portão.

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