26 ou 27 de fevereiro de 2013
Atravesso o Marrocos a bordo de um trem noturno. Divido o vagão com quatro pessoas. Há um homem na cama abaixo da minha. Sonhei com um diálogo entre o homem e o funcionário do trem. Ele pedia para ser acordado na estação de Rabat. O funcionário dizia que não era possível ajudá-lo, indicou o tempo médio do percurso até a cidade e sugeriu que ele colocasse o celular para despertar.
O árabe rasgava o meu ouvido, mas eu podia entender cada palavra que eles disseram. Em algum momento, havia me tornado fluente na língua.
Acordei no meio da madrugada com um despertador. O homem desceu. Pela janela, eu conheci Rabat.
*
Há muita coisa em minha cabeça. O fuso me confunde e não sei direito que horas são.
Mais cedo, presenciei um cortejo fúnebre na Medina de Tânger. Trinta homens se revezavam para carregar um caixão que era erguido acima da cabeça de todos eles. Em nada se parecia com os cortejos de minha infância em Saquarema. Marchavam como se coreografados, soldados de uma guerra qualquer.
Palavras de ordem eram gritadas, numa oração que parecia amaldiçoar a deus.
Somos todos soldados de uma guerra já perdida. Mas se há certeza da derrota, que ao menos cuspamos no chão e deixemos claro o nosso desagrado.
Atravesso a mim mesmo a bordo de um trem noturno.
27 de fevereiro de 2013
Jamma El Fna.
Repito por três vezes enquanto o taxista corrige a minha pronúncia.
Quando me vejo na praça, tudo se apaga.
Homens se misturam a macacos e a cobras e a laranjas e a barracas e a barracas e a homens e a bicicletas e a motocicletas. São milhares de motocicletas.
Não há pobres na Medina. Não há ricos na Medina.
Todas as normas de segurança do código de trânsito se resumem a uma:
— Encontre espaço.
Todas as orientações de higiene da vigilância sanitária se fazem uma:
— Experimente.
E eu durmo cheio.
28 de fevereiro de 2013
E foi assim que me apaixonei à segunda vista.
Você não pode se perder se não há um destino te esperando.
E eu flanei por todos os becos da Medina de Marrakech. Entre motocicletas, me deixei tocar por árabes, judeus, turistas, pessoas, paredes.
Há qualquer coisa de ordem no caos.
Você desce para cima nas montanhas do Alto Atlas. Por mais que o ônibus insistentemente cisme em se jogar estrada abaixo, há sempre um novo abismo que se mostra após cada curva.
Me canso e durmo.
*
Em Aït-Ben-Haddou eu volto dez vidas. Haverá num passado distante uma reencarnação que tenha me feito berbere.
Deixo um pedaço aqui.
2 de março de 2013
As montanhas agora são dunas e onde havia cinza vejo apenas vermelho.
Tudo que é sólido desmancha no ar. E o Marrocos se esfarela pela janela.
*
Caminho duas horas sobre o deserto em companhia de um camelo.
Meu companheiro mastiga algum resto de comida durante a viagem. Eu rumino qualquer coisa que já não é mais. Se houvesse um espelho, talvez eu pudesse me ver espumar como ele. Mas o que tenho na boca é intragável e não me alimenta.
Cuspo.
O sol some por trás das dunas.
*
Omar nasceu no Saara. Fala a língua berbere, inglês, francês, árabe e um pouquinho de espanhol.
Omar não gosta de cidades grandes. Quando precisa ir a Marrakech, amarra um elástico no deserto para puxá-lo de volta.
Omar não ama o mar.
Quando Omar ri nasce uma flor no deserto. Nessa noite ele quase sorriu e eu pude ver alguma coisa verde no meio da areia.
*
O melhor do Saara é mijar sob as estrelas e sentir o vento gelado do deserto beijar a cabeça do seu pau.
3 de março de 2013
Meu amigo ainda mastiga a comida da véspera. Eu já não tenho nada além de um gosto amargo na boca.
Quando o sol nasce eu quase acredito em deus.
*
São dois dias sem banho. O sol se põe, e as mesquitas cantam quando chego a Marrakech. Eu me pergunto pra quê existe tanta gente no mundo.
Sufoco.
*
Não há comida e não há dinheiro. Erro pela Medina em busca de alguma coisa. O cheiro do pão me leva a um beco sem eletricidade. Me abaixo através do que parece uma porta e alcanço um porão.
Três homens trabalham. Centenas de pães acabam de sair da fornalha. De mão em mão eles são empilhados em um canto.
Compro seis. Tão bom quanto a carne de cristo.
Junto aos pães quatro ovos e meio quilo de bananas. Com um euro eu tenho a comida de dois dias.
4 de março de 2013
Os autofalantes da mesquita anunciam um novo dia. Me levanto quieto para não acordar meus companheiros de quarto.
Marrakech acorda com sono.
A Medina está cheia de gatos. Me sinto bem em companhia de gatos. Quem sabe num futuro não muito distante eu viva numa casa com duzentos gatos, usando calças mijadas e desviando das pedras que as crianças atiram nas vidraças.
Tomo um suco de laranja na praça Jamma El Fna.
Deixo Marrakech a bordo de um trem.
5 de março de 2013
— Me diz alguma coisa bonita.
— Janela.
6 de março de 2013
Volubilis dá vontade de ser eterno.
A chuva cai violenta e suja a roupa já suja.
*
Entro num taxi. Não há dinheiro e as refeições se tornaram escassas.
Jairzinho, Gérson, Pelé, Tostão, Sócrates. Ele entende das coisas. Não tiro os olhos do taxímetro. Pergunto quanto vai dar até a gare.
— T'inquiète pas!
Insisto.
— T'inquiète pas, mon ami.
Quando chego ao destino ele me diz:
— Si vous n'avez pas d'argent, pas de problème. C’est la vie.
Mèknes fica para trás. Levo comigo um pouco de paz para acalmar um espírito que ferve.
O mundo é bão, Abraão.
T'inquiète pas.
*
Já é noite quando chego a Fès. A Medina é formada por milhares de estreitos corredores. Não é possível ver o céu. Por vezes, as casas cobrem as ruas formando túneis por onde mesmo durante o dia não é possível caminhar sem o auxílio de uma lanterna.
Saio do Rhiad em busca de comida. No meio do caminho me dou conta de um erro. Uso displicentemente uma camisa do Vasco da Gama. Do lado esquerdo do peito, sustento uma cruz de malta. Não existem cruzes no Marrocos. A Cruz Vermelha aqui é Croissant-Rouge. Os letreiros luminosos das farmácias francesas que sustentam uma cruz verde são substituídos por uma lua crescente.
Entro em um beco qualquer. Não há ninguém nas ruas. Tiro a minha camisa e a visto pelo avesso. Procuro caminhar com a mão direita sobre o peito. Me sinto idiota.
Acho uma mercearia onde crianças se empilham no balcão para comprar doces. Gasto dez dirhams em bolinhos, chocolates e uma coca-cola quente.
Antes mesmo que eu pudesse me afastar, ouço um grito acompanhado de risadas.
— Monsieur, votre chemise est à l'envers.
Agradeço.
De que lado mesmo a gente vive?
*
O cheiro do couro me enjoa.
— Un feuilleton brésilien a été tourné ici.
Não me entusiasmo.
*
Queria tomar uma cerveja vendo mulheres passarem.
Não há álcool e as mulheres não passam.
8 de março de 2013
Chove o dia todo.
Setecentas mesquitas gritam ao mesmo tempo e todas as pessoas atendem ao seu chamado.
É sexta-feira. Hoje tudo é mais grave.
*
Crianças jogam futebol onde há espaço.
Ouço uma história. Certa vez, um jogador marroquino marcou um belo gol e se inspirou em um famoso meio-campista brasileiro para comemorar. Correu em direção a sua torcida e fez o sinal da cruz por diversas vezes. Garrafas e sapatos voaram em sua direção e antes mesmo que pudesse compreender o equívoco, o juiz o expulsou.
Crianças jogam futebol onde não há espaço.
9 de março de 2013
Durmo na gare para economizar uma diária.
Todo abraço de chegada me cria um sorriso.
Não caibo na cadeira da estação.
*
Em Paris sou devolvido ao mundo.
Mas o mundo mudou enquanto estive fora.
— Monsieur, votre chemise est à l'envers.
Agradeço.
A verdade é que ela me veste muito mais confortável assim.