quinta-feira, 19 de janeiro de 2017




"Eu quero que você morra", disse baixo. Mas gritaria pro mundo ouvir, caso ainda tivesse voz.
Procurava desesperadamente uma navalha, um poderoso veneno, uma ponte alta pra se atirar. Era cena. Não tinha a menor vocação pra suicida. E se alguém deveria morrer ali, não era ele.
“Eu quero que você morra”, disse repetidamente para si mesmo. Aos poucos foi colocando as ideias no lugar. Já não estava para pirotecnias. Respirou devagar enquanto repassava o seu mantra mentalmente. Meditava.
Sim, ela merecia. Isso não se discute. Merecia uma morte lenta e torturosa. Analisava todas as possibilidades. Empalada, enforcada no lustre da sala, queimada viva em fogueira de São João. Se ela tivesse sete vidas ele inventaria uma maneira criativa e dolorosa pra acabar com cada uma delas. E cortaria a sua carne em postas finas, e beberia o seu sangue como quem toma coca-cola no verão, e chuparia até o último metacarpo, sugando o tutano de dentro dos ossos.
“Eu quero que você morra”, disse rindo. Era um êxtase. Estava cheio de deus, seu desejo já era uma verdade. Ela iria morrer porque ele queria que ela morresse. Morreria ali, agora. Prepararia um funeral sem honras ou homenagens. Acharia o valão mais fundo por onde corresse o esgoto mais sujo e jogaria seus restos. Cuspiria em cima. E tudo acabaria.
Mas ela não morreu. Continuou latejando, doendo fundo nele, matando-o por dentro cada vez que respirava.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

         
           Há exatamente um ano eu saía mais cedo do trabalho e aguardava durante horas numa imensa fila a oportunidade de estar com Eduardo Galeano.
Era uma terça cinza e dentro de mim espocavam todas as cores da América. Sozinho e solene retirei a antepenúltima senha da centena disponibilizada para entrar no auditório.
 No entanto, o que se viu depois foi surpreendente. A notícia de que do lado de fora se acumulavam centenas, talvez milhares, de jovens querendo ver o escritor uruguaio inflamou quem havia assegurado por sorte ou persistência a sua senha com certa antecedência. Num movimento de conflitos e debates, resolveu-se, após uma longa queda de braço, transferir a fala de Galeano para o ginásio da universidade.
Sentada nas arquibancadas e por toda a extensão da quadra, uma pequena multidão se acumulava. Talvez mil ou duas mil pessoas (número que a Rede Globo ou a PM paulista certamente calculariam cinquenta vezes maior, caso estivéssemos numa manifestação pró-impeachment) estavam ali, molhadas e cansadas, aguardando Galeano.
A imagem do senhor debilitado, fragilizado pela idade e pelo câncer, se evanescia a cada leitura, cada palavra que escorria pelo microfone e pelas combalidas caixas de som improvisadas. No entanto, a beleza do que era dito transcendia a resistência do ar tão áspero a que todos nós nos habituamos.
Galeano estava ali.

***

Acabo de finalizar um projeto sobre utopia com meus alunos do 3º ano no Colégio Saint John.  O trabalho final consistiu na criação de um universo utópico, com toda a sua complexidade, inspirado na famosa ilha de Thomas More.
Na primeira aula apresentei a todos Eduardo Galeano através de sua entrevista para o programa Sangue Latino, esse vídeo tão divulgado nas redes sociais e que eu mesmo compartilhei uma infinidade de vezes por aqui. Vídeo que quem foi meu aluno em anos anteriores certamente já teve a oportunidade de ver em alguma das minhas aulas.
Nessa mesma turma de 3º ano, adotei como obra literária para o segundo bimestre o “Livro dos Abraços”. Ao fazer a escolha no ano passado, a coordenadora me informou que segundo a editora a obra estava esgotada. Fazia-se necessário escolher outro livro.  Bati o pé. A gente se vira, compramos na Estante Virtual, disponibilizamos em PDF, sei lá. E assim foi. E assim será.
Todo jovem pobre de 15 anos deveria ser obrigado a ler “As veias abertas da América Latina”, livro/barril de pólvora.
Numa idade avançada, com a sabedoria de quem bebeu muito do mundo, o conflito talvez já não seja mais uma necessidade. Por isso, eu entendo o que o Galeano disse quando recentemente relativizou a importância da sua obra. No entanto, a juventude de alma inflamada, que vive em atrito com todos e consigo mesmo liberando faíscas por onde passa, deveria encontrar o combustível necessário para incendiar o mundo num livro como esse.
Mais. A juventude que não encontra seu lugar no mundo, que vive à terceira margem, a quem a própria identidade é um crime e a vida um favor, a ela, “As veias abertas” é uma janela.

***

Minha forte ascendência portuguesa deixou como legado genético essa cor que não sai sob nenhum sol. Por isso, ser latino para mim nunca foi uma obviedade, mas antes uma questão de afirmação.
O curto período de vida em que estive na Europa me permitiu ter certeza de algo que nunca foi uma dúvida: sou latino-americano. Pertenço a esse lugar e, numa relação que nunca é simétrica e muito menos óbvia, esse lugar me pertence. Tudo que me cabe está aqui. Sou muito de cada índio de cada etnia que habita essa terra. Sou muito dos negros que aqui foram trazidos a força e resistiram a toda opressão e violência que sofreram. Sou muito dos vícios portugueses, que apesar dos pesares me deixaram uma língua virtuosa de herança da qual fiz minha profissão.
Sou além. Andino, atacamenho, caribenho. Sou boliviano, peruano e argentino. Sou todos porque todos somos um só. Porque diante da diversidade que nos constrói, sofremos os mesmos achaques, fomos vítimas do mesmo estupro histórico e compartilhamos a mesma terra em toda a sua magia.
Galeano me deu voz, porque deu voz a tudo o que me faz. Voz que hoje cessa, mas que continuará ecoando em cada metro desse continente.

As veias estão abertas, mas o pulso ainda pulsa.

domingo, 27 de abril de 2014

Dicionário de cheiros para Ana



Peça nova de Lego: É uma festa de aniversário de criança cheia de crianças. Aliás, é a sua festa de aniversário cheia de crianças.

Frango assado de padaria: Lembra quando você ficou quase 14 horas sem comer para fazer exame de sangue? É como uma fome desse tamanho, mesmo quando se está satisfeito.

Café: Uma vó varrendo a casa enquanto você ainda dorme.

Paris: Espere a primeira noite de chuva de maio. Deite na varanda e fique observando a movimentação da água no escuro. É importante manter-se acordada. Quando o que chamamos de aurora começar a surgir, vá para o meio do quintal, feche os olhos e inspire todo o ar que você puder. Vai lembrar Paris.

Maconha: Uma grama molhada que seca dentro do seu pulmão.

Laranja: Chegue na praia às 7 horas da manhã numa quarta-feira de verão. Quando o sol começar a bater no seu rosto, teremos um cheiro de laranja.

Livro novo: Um cafuné em cima de lençóis limpos.

Loja da Sephora: Coloque todos os seus ex-namorados em um mesmo cômodo e terá uma confusão parecida. Que pode não ser de todo ruim.

Pão: O sorriso de uma criança no banco da frente do ônibus.

Gasolina: De certo você já cortou o dedo quando era criança e sua mãe, com as melhores intenções assépticas, limpou o seu machucado com álcool. Existem dois momentos nesse processo: a insuportável dor/ardência e, em seguida, o alívio obtido através do leve sopro materno no local do ferimento. Pois então, o cheiro de gasolina é assim, mas ao contrário. Primeiro vem o alívio do sopro, para então começar o desespero do ardor.

Mergulhão da Praça XV: É como sentir calor dentro de um elevador.

Hortelã: Um banho gelado no inverno.

Mar: Pensa na coisa azul mais bonita que você já viu. Agora imagina ela te beijando.

Feijão: É como um abraço de Preto Velho.

Natal: Quando escurecer, apague a luz da sala, deite no chão e observe os insetos dançando sobre a tela da tv. Obs: A temperatura ambiente deve estar acima dos 32 graus, a janela deve ser mantida aberta e você precisa sentir qualquer coisa de paz.

Visconde de Mauá: Acorde num domingo com chuva. Antes de abrir os olhos, você terá Mauá.

Você: Esse eu ainda não consigo explicar.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Transaturado



Dói

mais do que parece.
E tudo se esvai
entre os dedos
de uma vez.
A lágrima não conforta
a ignorância não ameniza
e a esperança só espera.

Dói
mais do que se imagina.
Pesadelo recorrente sua lembrança
todas as noites no pré-dormir
pensamento reticente
todo tempo em vão.
Seu encanto não é mais aliado
você não é mais.

E quando tudo falha
nenhum anestésico surte efeito
a existência toda parece uma droga
eu junto minhas moedas vou ao supermercado
e compro:

Wafer de chocolate Piraquê

Angústia permeia o pacote
dedos tremem na tentativa de violá-lo
são segundos de febre
tensão
martírio
até que

enfim

Eis a glória
o ápice
o orgasmo.
O suave farelo planando no ar
o doce aroma natural de cacau
a cura para todos os males.

Fosse eu presidente,
Wafer de chocolate Piraquê
estaria em todas as cestas básicas.
Fosse eu cristão,
Wafer de chocolate Piraquê
seria a atração principal da ceia de natal.
Mas sendo eu triste,
Wafer de chocolate Piraquê
é apenas um paliativo pós desilusão amorosa.

Que o degradê de marrons e suas duas camadas de recheio
aliviem a minha dor.
Que o biscoito fresquinho e seu doce sabor
criem-me um sorriso.

Wafer para
Wafer pera
Wafer pira
Wafer pora Nossa Senhora de Aparecida.

Preciso de um Wafer de chocolate Piraquê
para curar minha ferida.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Carta de (quase) Paris



No último sábado, fui convidado em cima da hora para uma festa em homenagem aos estudantes latinos na França. Aceitei, claro.
Não sou o que se pode chamar de uma pessoa simpática, mas consegui fazer alguns amigos aquela noite. Conversei longamente com amáveis russas, ajudei os franceses com as tarefas domésticas, adicionei um sorridente panamenho no facebook e assisti às meninas dominicanas dançarem no melhor estilo chacal rápido e rasteiro. Mas talvez tenha sido o minuto e meio em que conversei com uma colombiana que me marcou mais. 
É um vício um pouco idiota esse que a gente tem de procurar referências óbvias de um país estrangeiro para estreitar laços com seus habitantes. Outro dia, me despedi de uma mexicana no bar aos gritos de “Viva Zapata!”, ao que a moça — penteado britânico, roupa americana e inglês fluente desfilado durante toda a noite — sorriu amarelo e balançou a cabeça: “Babaca”.
Que merda. Os latinos na França são todos ingleses.
Enquanto a colombiana procurava uma música de seu país no youtube, eu disse:
— Coloca Shakira.
Ela foi sagaz.
— Shakira é americana, não tem nada a ver com a Colômbia.
Ponto. Foi o suficiente para que na frase seguinte eu abrisse meu coração.
— Gabriel García Márquez mudou a minha vida.
Ela sorriu e tentou repetir sem sucesso o que eu disse para a sua amiga que dançava algo como el baile del perrito.
Tudo bem. Ali eu já havia reacendido uma antiga paixão.
Tinha 15 anos quando li Cem anos de solidão a primeira vez. Era um garoto que ficava errando pelos livros da biblioteca da escola e foi assim me deparei com uma coleção de banca de jornal d’O Globo. Olhei o livro com a capa toda azul e li o título na lateral. Quando se é adolescente, qualquer minuto sozinho é insuportável, cem anos me pareciam muito tempo para se cultivar a solidão. Li.
E Gabriel García Márquez mudou a minha vida.
Ele me fez prestar vestibular para Letras, ele me fez continuar escrevendo poemas e ficções, ele me fez ser professor de literatura.
Hoje, a notícia mais recente que eu tenho de Gabo fala sobre o seu estado avançado de demência senil. Não há memória. Não há mais livros. Não há sequer um rosto familiar para Gabo. Talvez ainda haja espaço para qualquer coisa de bonito, que lhe invade a cabeça quando bate um vento mais forte e sai antes mesmo que possa deixar qualquer vestígio de que esteve por ali.
E é assim que eu vejo Gabriel García Márquez hoje. Vivendo numa Macondo que ele ergue todos os dias e se desmancha antes mesmo de ficar pronta, abrindo espaço para uma nova construção na manhã seguinte.

Publicado originalmente no blog Bliss não tem bis.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Cartas do avesso


26 ou 27 de fevereiro de 2013

Atravesso o Marrocos a bordo de um trem noturno. Divido o vagão com quatro pessoas. Há um homem na cama abaixo da minha. Sonhei com um diálogo entre o homem e o funcionário do trem. Ele pedia para ser acordado na estação de Rabat. O funcionário dizia que não era possível ajudá-lo, indicou o tempo médio do percurso até a cidade e sugeriu que ele colocasse o celular para despertar.
O árabe rasgava o meu ouvido, mas eu podia entender cada palavra que eles disseram. Em algum momento, havia me tornado fluente na língua.
Acordei no meio da madrugada com um despertador. O homem desceu. Pela janela, eu conheci Rabat.

*
Há muita coisa em minha cabeça. O fuso me confunde e não sei direito que horas são.
Mais cedo, presenciei um cortejo fúnebre na Medina de Tânger. Trinta homens se revezavam para carregar um caixão que era erguido acima da cabeça de todos eles. Em nada se parecia com os cortejos de minha infância em Saquarema. Marchavam como se coreografados, soldados de uma guerra qualquer.
Palavras de ordem eram gritadas, numa oração que parecia amaldiçoar a deus.
Somos todos soldados de uma guerra já perdida. Mas se há certeza da derrota, que ao menos cuspamos no chão e deixemos claro o nosso desagrado.
Atravesso a mim mesmo a bordo de um trem noturno.

27 de fevereiro de 2013

Jamma El Fna.
Repito por três vezes enquanto o taxista corrige a minha pronúncia.
Quando me vejo na praça, tudo se apaga.
Homens se misturam a macacos e a cobras e a laranjas e a barracas e a barracas e a homens e a bicicletas e a motocicletas. São milhares de motocicletas.
Não há pobres na Medina. Não há ricos na Medina.
Todas as normas de segurança do código de trânsito se resumem a uma:
— Encontre espaço.
Todas as orientações de higiene da vigilância sanitária se fazem uma:
— Experimente.
E eu durmo cheio.

28 de fevereiro de 2013

E foi assim que me apaixonei à segunda vista.
Você não pode se perder se não há um destino te esperando.
E eu flanei por todos os becos da Medina de Marrakech. Entre motocicletas, me deixei tocar por árabes, judeus, turistas, pessoas, paredes.
Há qualquer coisa de ordem no caos.


1 de março de 2013

Você desce para cima nas montanhas do Alto Atlas. Por mais que o ônibus insistentemente cisme em se jogar estrada abaixo, há sempre um novo abismo que se mostra após cada curva.
Me canso e durmo.

         *
Em Aït-Ben-Haddou eu volto dez vidas. Haverá num passado distante uma reencarnação que tenha me feito berbere.
Deixo um pedaço aqui.

2 de março de 2013

As montanhas agora são dunas e onde havia cinza vejo apenas vermelho.
Tudo que é sólido desmancha no ar. E o Marrocos se esfarela pela janela.

        *
Caminho duas horas sobre o deserto em companhia de um camelo.
       Meu companheiro mastiga algum resto de comida durante a viagem. Eu rumino qualquer coisa que já não é mais. Se houvesse um espelho, talvez eu pudesse me ver espumar como ele. Mas o que tenho na boca é intragável e não me alimenta.
Cuspo.
O sol some por trás das dunas.

*
Omar nasceu no Saara. Fala a língua berbere, inglês, francês, árabe e um pouquinho de espanhol.
Omar não gosta de cidades grandes. Quando precisa ir a Marrakech, amarra um elástico no deserto para puxá-lo de volta.
Omar não ama o mar.
Quando Omar ri nasce uma flor no deserto. Nessa noite ele quase sorriu e eu pude ver alguma coisa verde no meio da areia.

*
O melhor do Saara é mijar sob as estrelas e sentir o vento gelado do deserto beijar a cabeça do seu pau.



3 de março de 2013

Meu amigo ainda mastiga a comida da véspera. Eu já não tenho nada além de um gosto amargo na boca.
Quando o sol nasce eu quase acredito em deus.

*
São dois dias sem banho. O sol se põe, e as mesquitas cantam quando chego a Marrakech. Eu me pergunto pra quê existe tanta gente no mundo.
Sufoco.

*
Não há comida e não há dinheiro. Erro pela Medina em busca de alguma coisa. O cheiro do pão me leva a um beco sem eletricidade. Me abaixo através do que parece uma porta e alcanço um porão.
Três homens trabalham. Centenas de pães acabam de sair da fornalha. De mão em mão eles são empilhados em um canto.
Compro seis. Tão bom quanto a carne de cristo.
Junto aos pães quatro ovos e meio quilo de bananas. Com um euro eu tenho a comida de dois dias.

4 de março de 2013

Os autofalantes da mesquita anunciam um novo dia. Me levanto quieto para não acordar meus companheiros de quarto.
Marrakech acorda com sono.
A Medina está cheia de gatos. Me sinto bem em companhia de gatos. Quem sabe num futuro não muito distante eu viva numa casa com duzentos gatos, usando calças mijadas e desviando das pedras que as crianças atiram nas vidraças.
Tomo um suco de laranja na praça Jamma El Fna.
Deixo Marrakech a bordo de um trem.

5 de março de 2013

— Me diz alguma coisa bonita.
— Janela.

6 de março de 2013

Volubilis dá vontade de ser eterno.
A chuva cai violenta e suja a roupa já suja.



*
Entro num taxi. Não há dinheiro e as refeições se tornaram escassas.
Jairzinho, Gérson, Pelé, Tostão, Sócrates. Ele entende das coisas. Não tiro os olhos do taxímetro. Pergunto quanto vai dar até a gare.
— T'inquiète pas!
Insisto.
— T'inquiète pas, mon ami.
Quando chego ao destino ele me diz:
— Si vous n'avez pas d'argent, pas de problème. C’est la vie.
Mèknes fica para trás. Levo comigo um pouco de paz para acalmar um espírito que ferve.
O mundo é bão, Abraão.
T'inquiète pas.

*
Já é noite quando chego a Fès. A Medina é formada por milhares de estreitos corredores. Não é possível ver o céu. Por vezes, as casas cobrem as ruas formando túneis por onde mesmo durante o dia não é possível caminhar sem o auxílio de uma lanterna.
Saio do Rhiad em busca de comida. No meio do caminho me dou conta de um erro. Uso displicentemente uma camisa do Vasco da Gama. Do lado esquerdo do peito, sustento uma cruz de malta. Não existem cruzes no Marrocos. A Cruz Vermelha aqui é Croissant-Rouge. Os letreiros luminosos das farmácias francesas que sustentam uma cruz verde são substituídos por uma lua crescente.
Entro em um beco qualquer. Não há ninguém nas ruas. Tiro a minha camisa e a visto pelo avesso. Procuro caminhar com a mão direita sobre o peito. Me sinto idiota.
Acho uma mercearia onde crianças se empilham no balcão para comprar doces. Gasto dez dirhams em bolinhos, chocolates e uma coca-cola quente.
Antes mesmo que eu pudesse me afastar, ouço um grito acompanhado de risadas.
— Monsieur, votre chemise est à l'envers.
Agradeço.
De que lado mesmo a gente vive?

*
O cheiro do couro me enjoa.
— Un feuilleton brésilien a été tourné ici.
Não me entusiasmo.

*
Queria tomar uma cerveja vendo mulheres passarem.
Não há álcool e as mulheres não passam.

8 de março de 2013

Chove o dia todo.
Setecentas mesquitas gritam ao mesmo tempo e todas as pessoas atendem ao seu chamado.
É sexta-feira. Hoje tudo é mais grave.

*
Crianças jogam futebol onde há espaço.
Ouço uma história. Certa vez, um jogador marroquino marcou um belo gol e se inspirou em um famoso meio-campista brasileiro para comemorar. Correu em direção a sua torcida e fez o sinal da cruz por diversas vezes. Garrafas e sapatos voaram em sua direção e antes mesmo que pudesse compreender o equívoco, o juiz o expulsou.
Crianças jogam futebol onde não há espaço.


9 de março de 2013
           
Durmo na gare para economizar uma diária.
Todo abraço de chegada me cria um sorriso.
Não caibo na cadeira da estação.

*
Em Paris sou devolvido ao mundo.
Mas o mundo mudou enquanto estive fora.

— Monsieur, votre chemise est à l'envers.
Agradeço.
A verdade é que ela me veste muito mais confortável assim.


Pulicado originalmente no blog Bliss não tem bis.