Eu nunca te escrevi. E isso se explica de maneira muito clara. Se escreve quando há algo que incomoda, fere, lateja. Você sempre foi calmo em mim, felicidade de domingo sem trabalho. Ouso dizer, ainda sob os efeitos de estar apaixonada, que nunca fui tão feliz em um relacionamento — ou seja lá como se chama isso de estarmos juntos há algum tempo.
Essa semana eu perguntei ao espelho o que há de errado com a felicidade. Transfiro a pergunta a você agora. O que há de errado com a felicidade? Não posso entender essa força que te impele ao abismo, que te leva ao sofrimento. Sua boca tem gosto de caos, porque você bebe litros de dor por dia. Você encontra dor debaixo do sofá, atrás das cortinas, dentro da geladeira. Caem gotas de dor sobre a sua cabeça enquanto você corre pela rua. E isso te contamina, te mina, te lima.
É o preço, diriam alguns. O preço de ser tão sensível ao mundo, de viver com olhos de poeta. Mas não há lugar para a poesia hoje. Então, te prescrevem remédios, te ouvem de 8 às 9 todas as terças e quintas, te colocam na cama e cantam pra você dormir. Eles se esquecem, meu bem, que você não cabe em si. E não cabendo, transborda. E transbordando, inunda. E inundando, afoga. E afogando, mata. A sua inocência o torna culpado.
Faz-se urgente achar qualquer buraco, qualquer vão entre duas paredes em que você caiba. Porque esse mundo é duro demais, e ninguém quer ouvir os seus gritos. As pessoas querem velocidade e dinheiro e silêncios e sexo e sexo e sexo e sexo dissimulado e sexo sem amor e sexo por dinheiro e sexo e sexo e sexo e sexo. Esse mundo não te merece, moço, embora eu não tenha a absoluta certeza de que você faz por merecer estar nele também.
Entenda, a felicidade é quietinha. Ela não faz alarido, anda na ponta dos pés, de meia grossa sobre o piso gelado. Quando ela tem pressa, desliza sobre patins silenciosos, com rodas muito bem azeitadas, fazendo zigue-zagues por aí. E foi assim durante todo esse tempo. E foi bonito demais o nosso tempo.
Mas não há satisfação na resposta de deus para Jó e essa é a minha deixa.
Fique calmo, respire fundo. Se a sua sina é errar de amor em amor, se você nasceu para sofrer, dance um tango, faça um drama daqueles de se aplaudir de pé. Aceite a sua condição. É assim que se aprende a morrer.
Eu não sei o que é o amor. Mas desconfio, lá no fundo, que ele não pode ser encontrado longe do que nos é sincero. Antes de consultar pajé, cartomante, coroinha, despachante, mendigo, estudante, trapezista, fumante, cigano, infante, ascensorista, calmante, psiquiatra e estante, lembre-se, faz-se sempre necessário, em primeiro lugar e acima de qualquer coisa, ouvir a sua amante.
Mas agora eu calo.

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