dê licença o senhor
pra eu contar uma história
que há muito passeia pelas bandas
de cá
se é verdade ou invenção
desconheço
sei que se trata de um continho de amor
bonito toda a vida
e isso basta
Antonio Pederneiras vivia na pacata cidade de
Miracema do Norte
sábio e quieto
antes de tudo professor
tinha o respeito geral
mas era homem de ontem
vivia fechado em livros e escrevinhando
o sentimento do mundo
coisa que não se encontrava de muito
naquelas terras
Maria Aparecida dos Santos
residente ao distrito de Lagoa da Confusão
vivia de pensamentos
quando alguém cismava dificuldade em pensar
de pronto achava Maria
e ela lhe oferecia um sossego
problema com namorado
ou com bebida
morte na família
dor de sonho
qualquer coisa resolvia Maria com os pensados
de sua cabeça
de primeiro se dizia que Maria pensava certo
porque tinha a cabeça no chão
isso explicava
nunca ter crescido muito
dizia também que ela pensava certo
porque se conversava com animais
e o costume fazia bem pro miolo
o fato é que sendo torto ou direito
a moça era doutora
e vivia a ajeitar a cabeça do povo
que em terra tão tristemente batizada
confundia as próprias ideias
como quem separa feijão
Antonio Pederneiras
passava momento difícil naqueles idos
pensou o mundo vasto demais e se perdeu
em si mesmo
de uma refeição para outra sumiu da cidade
fez se trancar em casa
não via o sol
não via a moça na janela
não via a procissão de nossa senhora
gastava tudo escrevendo coisa que pouco se entendia
com a ausência
os meninos ficaram sem mestre
a escola não abriu
ninguém aprendeu ler
e as janelas se quebravam cada vez mais
em Miracema
era caso de urgência resolver a situação
fato é que por aí
a fama da moça que acertava pensamento
já andava pelo vento
formou-se então uma caravana
e Antonio Pederneiras foi encaminhado
resignado como um cão molhado
para tratar a cabeça em Lagoa da
Confusão
e é exatamente nesse ponto
meu senhor
que se dá o que se deu
quase nada se tem sobre o primeiro encontro
mas como de tudo fala o povo um pouco
consta nas atas que
ficaram os dois
o professor e a doutora
em silêncio por grande hora
até que no fim a moça disse
— vai ser mais difícil que eu esperava
e assim
acompanhados pela vigilância alheia
os dois se encontravam dioturnamente
no que ao olho mais atento
tinha mais de namorico
que de tratamento
o que não se esperava
era que a prosa com Antonio Pederneiras
fez a moça dar a luz a pensado torto
coisa distinta do seu costume
ela colava a cabeça no chão
tentava esvaziar tudo lá de dentro
mas não adiantava
mal cantava o sol e lá ia Maria
de encontro ao professor
aos poucos a moça deixou de distribuir resposta
a todo povo
já não lhe parecia tão ruim assim
encher a cabeça de minhocas
decidiu guardar a voz aos animais e ao professor
quem vivia de pensado certo
agora só bebia da própria confusão
Antonio Pederneiras
antes sábio e quieto
cada vez sabia menos e calava menos
as coisas já não eram tão graves
e o sentimento do mundo agora lhe parecia
outro
pois bem
o tempo é flor se abrindo
e não demorou muito para que enamorassem
feito dente e gengiva
mandioca e terra preta
Maria
que curava confusão e agora era confusa
Antonio Pederneiras
que baixava a cabeça e agora se via com dentes
arrodearam o destino
se juntando em dedos
para viver o que era permitido viver
ninguém viu
pra onde foi ou deixou de ir
o par
o que se fez da escola
não se sabe
menos ainda como o povo lagoense
passou a curar os pensamentos
pra bom entendedor
nada disso importa
nada disso importa
e é assim que acaba a
história que ouvi de outro
e passo agora adiante
deixo o meu recado
ao senhor que dizem
ter o coração numa gaveta
e a cabeça numa fôrma:
faz favor se abra
porque o mundo é
entrega
quando a cabeça tá confusa
e o pensado em linha torta
é que o amor se bate à porta.
Nenhum comentário:
Postar um comentário