segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Do que falo quando falo de poesia?



Sou coagido a dizer. E, assim, digo. O resto é forma. E aí se caminha por onde há espaço.
Construo a mim mesmo no que é dito. Ergo as fronteiras que me divisam do mundo, que me delimitam como sendo, a partir da palavra. Nesse sentido, dizer é sobrevivência.
E poesia é dizer-se. Todo poema é um alicerce de mim. É uma forma, entre outras, de lançar-me ao mundo. É a possibilidade de criar-me e recriar-me a partir do que eu digo e, assim, ser. O que surge a partir daí não se sabe. Se conforma, se transforma, se informa ou se deforma.
Mas não se engane, não. Isso nada tem a ver com a velha máxima rilkeana endereçada ao jovem poeta. Vive-se muito bem, obrigado, sem poesia. Há necessidade de feijão, juros baixos e conexão banda larga de qualidade. O resto é supérfluo.
Como pode então a poesia, objeto dispensável, sustentar uma condição? Como pode então a poesia, artigo de perfumaria, fazer-me?
Certa vez ouvi de uma senhora casada a vida toda com um poeta que o ego do seu marido era do tamanho de uma Kombi. Todos os poetas são uns egoístas filhos da puta, ela disse. Eles nunca estão satisfeitos.
Por isso, sinto-me coagido a dizer. O ego é uma Kombi e exige um espaço para si. Assim, desenho fronteiras, diviso-me do mundo através da poesia.
Quando falo de poesia, falo de mim mesmo. Tudo o que é meu é matéria do poema.
O que sustento e suporto está aí. Mas, perceba, tudo é claro como água suja. Porque, de fato, trata-se de um eu escamoteado, um jogo de véus em que não se mostra o que se quer mostrar.
A poesia, enfim, é uma criptografia de mim.


Publicado originalmente no blog Bliss não tem bis.

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