segunda-feira, 13 de abril de 2015

         
           Há exatamente um ano eu saía mais cedo do trabalho e aguardava durante horas numa imensa fila a oportunidade de estar com Eduardo Galeano.
Era uma terça cinza e dentro de mim espocavam todas as cores da América. Sozinho e solene retirei a antepenúltima senha da centena disponibilizada para entrar no auditório.
 No entanto, o que se viu depois foi surpreendente. A notícia de que do lado de fora se acumulavam centenas, talvez milhares, de jovens querendo ver o escritor uruguaio inflamou quem havia assegurado por sorte ou persistência a sua senha com certa antecedência. Num movimento de conflitos e debates, resolveu-se, após uma longa queda de braço, transferir a fala de Galeano para o ginásio da universidade.
Sentada nas arquibancadas e por toda a extensão da quadra, uma pequena multidão se acumulava. Talvez mil ou duas mil pessoas (número que a Rede Globo ou a PM paulista certamente calculariam cinquenta vezes maior, caso estivéssemos numa manifestação pró-impeachment) estavam ali, molhadas e cansadas, aguardando Galeano.
A imagem do senhor debilitado, fragilizado pela idade e pelo câncer, se evanescia a cada leitura, cada palavra que escorria pelo microfone e pelas combalidas caixas de som improvisadas. No entanto, a beleza do que era dito transcendia a resistência do ar tão áspero a que todos nós nos habituamos.
Galeano estava ali.

***

Acabo de finalizar um projeto sobre utopia com meus alunos do 3º ano no Colégio Saint John.  O trabalho final consistiu na criação de um universo utópico, com toda a sua complexidade, inspirado na famosa ilha de Thomas More.
Na primeira aula apresentei a todos Eduardo Galeano através de sua entrevista para o programa Sangue Latino, esse vídeo tão divulgado nas redes sociais e que eu mesmo compartilhei uma infinidade de vezes por aqui. Vídeo que quem foi meu aluno em anos anteriores certamente já teve a oportunidade de ver em alguma das minhas aulas.
Nessa mesma turma de 3º ano, adotei como obra literária para o segundo bimestre o “Livro dos Abraços”. Ao fazer a escolha no ano passado, a coordenadora me informou que segundo a editora a obra estava esgotada. Fazia-se necessário escolher outro livro.  Bati o pé. A gente se vira, compramos na Estante Virtual, disponibilizamos em PDF, sei lá. E assim foi. E assim será.
Todo jovem pobre de 15 anos deveria ser obrigado a ler “As veias abertas da América Latina”, livro/barril de pólvora.
Numa idade avançada, com a sabedoria de quem bebeu muito do mundo, o conflito talvez já não seja mais uma necessidade. Por isso, eu entendo o que o Galeano disse quando recentemente relativizou a importância da sua obra. No entanto, a juventude de alma inflamada, que vive em atrito com todos e consigo mesmo liberando faíscas por onde passa, deveria encontrar o combustível necessário para incendiar o mundo num livro como esse.
Mais. A juventude que não encontra seu lugar no mundo, que vive à terceira margem, a quem a própria identidade é um crime e a vida um favor, a ela, “As veias abertas” é uma janela.

***

Minha forte ascendência portuguesa deixou como legado genético essa cor que não sai sob nenhum sol. Por isso, ser latino para mim nunca foi uma obviedade, mas antes uma questão de afirmação.
O curto período de vida em que estive na Europa me permitiu ter certeza de algo que nunca foi uma dúvida: sou latino-americano. Pertenço a esse lugar e, numa relação que nunca é simétrica e muito menos óbvia, esse lugar me pertence. Tudo que me cabe está aqui. Sou muito de cada índio de cada etnia que habita essa terra. Sou muito dos negros que aqui foram trazidos a força e resistiram a toda opressão e violência que sofreram. Sou muito dos vícios portugueses, que apesar dos pesares me deixaram uma língua virtuosa de herança da qual fiz minha profissão.
Sou além. Andino, atacamenho, caribenho. Sou boliviano, peruano e argentino. Sou todos porque todos somos um só. Porque diante da diversidade que nos constrói, sofremos os mesmos achaques, fomos vítimas do mesmo estupro histórico e compartilhamos a mesma terra em toda a sua magia.
Galeano me deu voz, porque deu voz a tudo o que me faz. Voz que hoje cessa, mas que continuará ecoando em cada metro desse continente.

As veias estão abertas, mas o pulso ainda pulsa.

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