quinta-feira, 19 de janeiro de 2017




"Eu quero que você morra", disse baixo. Mas gritaria pro mundo ouvir, caso ainda tivesse voz.
Procurava desesperadamente uma navalha, um poderoso veneno, uma ponte alta pra se atirar. Era cena. Não tinha a menor vocação pra suicida. E se alguém deveria morrer ali, não era ele.
“Eu quero que você morra”, disse repetidamente para si mesmo. Aos poucos foi colocando as ideias no lugar. Já não estava para pirotecnias. Respirou devagar enquanto repassava o seu mantra mentalmente. Meditava.
Sim, ela merecia. Isso não se discute. Merecia uma morte lenta e torturosa. Analisava todas as possibilidades. Empalada, enforcada no lustre da sala, queimada viva em fogueira de São João. Se ela tivesse sete vidas ele inventaria uma maneira criativa e dolorosa pra acabar com cada uma delas. E cortaria a sua carne em postas finas, e beberia o seu sangue como quem toma coca-cola no verão, e chuparia até o último metacarpo, sugando o tutano de dentro dos ossos.
“Eu quero que você morra”, disse rindo. Era um êxtase. Estava cheio de deus, seu desejo já era uma verdade. Ela iria morrer porque ele queria que ela morresse. Morreria ali, agora. Prepararia um funeral sem honras ou homenagens. Acharia o valão mais fundo por onde corresse o esgoto mais sujo e jogaria seus restos. Cuspiria em cima. E tudo acabaria.
Mas ela não morreu. Continuou latejando, doendo fundo nele, matando-o por dentro cada vez que respirava.

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