Há em toda flor um cheiro de flor. No limite que distingue as flores de outras flores ou de pedras ou de aves, há também um cheiro de flor.
Mas para Ana não havia cheiro de nada. E sem cheiro as flores parecem iguais de olhos fechados.
De todos os sentidos humanos, o olfato, talvez seja o mais subestimado. Para Ana, um mundo sem cheiro nunca foi realmente um problema. Tá sentindo isso? Ao que ela respondia não, não estou sentindo nada. E a vida segue anestesiada.
Ana enxerga, Ana ouve, Ana saboreia e Ana toca. Às vezes eu até acho que Ana intui. Mas Ana não cheira e, embora isso nunca tenha sido realmente um problema, há de se convir que um universo inteiro se fecha diante da impossibilidade de odores.
Sabe-se lá o que Ana pensa quando mata um percevejo. E o que acontece quando a primeira chuva de janeiro se precipita sobre a terra seca do quintal? Como um bolo no forno se anuncia para Ana?
De fato, o olfato humano é muito subdesenvolvido se comparado ao de outros animais, como os cachorros. Ana tem muitos cachorros em casa e talvez isso explique alguma coisa que não pode ser explicada. Desde pequena ela os observa pelo quintal, focinho colado no chão, farejando o que quer que seja. Talvez Ana quisesse ser um cão.
Certa vez, quando menina, ela foi ao quarto de sua mãe e pegou todos os vidros de perfume que estavam ao seu alcance. Experimentou um a um sobre o corpo, todas as fragrâncias em generosas doses. Quando chegou em casa, sua mãe se assustou com o carnaval de cheiros e, prendendo a respiração, jogou a menina embaixo do chuveiro. Para Ana nada daquilo fazia sentido.
Ana vive bem assim, embora ainda existam pontuais limitações. Antes de sair de casa, ela sempre pega a roupa e mostra para a sua mãe. Tá cheirando bem, mãe? E se sente mais confortável quando tem a aprovação materna.
Ana anda pelo mundo prestando atenção em tudo. Atenta para cada cor, cada forma. Todos os ruídos são importantes para Ana. E as coisas são bonitas por trás dos seus óculos. Não há dor na ausência de cheiro, embora não haja conforto também.
E eu, que hoje quero guardar Ana de todo mal que há no mundo, ando segurando sua mão pelas ruas da cidade dizendo que cheiro bom que isso tem, Ana, esse pão parece tão bom, ou essa árvore tem um perfume tão doce. E me pego a descrever cheiros como nunca pensei que fosse fazer, criando adjetivos e metáforas que me permitam ver os olhos de Ana brilhar. E vez ou outra me pego a entender Ana, tão pequena, sentindo o mundo com seu corpo metro e meio, tocando extremos, fantasiando de cheiros o vento contra o rosto. E eu que tantas vezes fui displicente com meu nariz, que quase sempre não fui dono dele, hoje me pego pensando o mundo através do cheiro que o mundo tem.
E que cheiro bom eu sinto em Ana.

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