domingo, 1 de agosto de 2010

Na milésima-segunda noite ela foi embora. Pegou o terço, uma muda de roupa e saiu para não mais voltar.

Sentado no sofá, ele procurava entender aonde errara. Minuciosamente, como nos últimos quase três anos, havia planejado tudo. Criara nomes, toda uma cronologia, descrevera o cenário fotograficamente. Tudo nos conformes. Mas, então, porque ela havia ido?

Já havia contado histórias sem pé nem cabeça. Ela reclamava, fazia cena, e entre a louça quebrada e a mobília fora de lugar, as coisas se arrumavam.

Certa vez, quase fora traído pelo excesso de álcool. Misturou nomes, confundiu lugares e pronto: confusão. Mas ele era como um gato, se esquivava. E, ainda que caísse, sempre terminava de pé.

Quanto mais acuado, mais agressivo ficava. Era mestre em sair de sinucas. Em momentos onde qualquer um entregaria o jogo, ele apostava tudo e tirava uma carta da manga:

- Quem ama, confia. Dizia num blefe invejável que era facilmente acompanhado de lágrimas nos olhos.

Vencia sempre.

Mas na milésima-segunda noite ela cansou. Não disse nada. Pegou o terço, uma muda de roupa e saiu para não mais voltar.

Repassava a história mentalmente. Não havia erros, era certamente uma das melhores. Genuíno exemplar das belas letras. Olhava a casa em ordem. Pensou nela voltando, quebrando os vasos de flores recém comprados, virando a mesa, ameaçando se jogar pela janela. Depois se acalmaria, pediria desculpas e de vassoura em punho as coisas se ajeitariam novamente.

Ela não voltou. Nem sequer para lhe dar a chance de tentar de novo.

Talvez ele não tivesse mesmo errado. Talvez fosse realmente a melhor de todas, uma obra-prima.

Mas na milésima-segunda noite ela se calou. Cansou de ser coadjuvante em tanta história branca e preta e foi se inventar.

4 comentários:

  1. Adorei, Daniel. Amo suas...crônicas? Bem, não sei. Elas me lembram aquelas crônicas que convidados escrevem na Revista, do O Globo. Ah! E sempre vale a pena esperar por estes "eventos únicos". Beijos!

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  2. Depois do comentário anterior o meu fica até sem brilho aqui. hahaha Eu gostei!

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  3. Muito bom, Daniel. Gosto de suas crônicas também. Incrível. Abraço!

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  4. Maravilhoso!!!
    Caiu-me como uma luva e a lágrima deslizou em meu rosto...
    Comovente!
    Magnífico!
    Sei que ela existe... sei que ela existe...!
    Ela pode ser eu, ou um milhão de mulheres espalhadas por esse imenso universo!
    Magicamente encontrei seu blog pesquisando imagens, mas não posso e nem devo deixá-lo escapar de mim entre esse mundo maluco da tecnologia.
    Sei que tu existe e amei te encontrar...
    Vou ler mais e mais e mais!
    Deus te abençoe e te proteja!

    P.S: Se você é sapo eu sou um riacho...!

    Aceite meu carinho e minha amizade!

    Maura

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