sábado, 19 de junho de 2010

Havia um vestido na sala. Ficava pendurado na parede do meio, ao lado do altar de Nossa Senhora. Era rendado, costura fina. Estava amarelo do tempo, a poeira o cobria por inteiro. Aos mais desatentos, poderia parecer uma cortina de janela nenhuma ou um lençol cobrindo um espelho que não existia para uma simpatia desconhecida. Mas era um vestido, pendurado na parede fazia tempo.
A dona dele não morava ali. Nem era parente querida morta em desastre. Já havia sumido no mundo. Veio como foi, choveu e secou naquela casa. Tinha tempo, fez lama. O vestido ainda era branco e cabia certo. A moça se mostrava de dentro de tão pouco pano. O homem viu e se enamorou. Quis o corpo fora do vestido, quis se ver dentro do corpo.
Mas ela não quis. E não quis de tal jeito que ele quis mais. E quis tanto que nem fazia mais querer por nada que não fosse a moça. Quis que o mundo acabasse. Cuspiu na comida, chorou no escuro, rasgou dinheiro.
A esposa tudo viu da outra, calada. O homem bateu, queria que a dor que sentia fosse embora. Mas não foi. Então pediu a mulher que fosse à dona do vestido e dissesse que era homem bom. E ela foi. Viu a moça, com riso de carrasco, escondendo quase nada do seu prazer de vê-la peito aberto e coração na mão.
- Meu marido é homem bom, faz favor de servir ele.
Tanto pediu que a moça se abondou. Aceitou o homem como quem faz compras. E riu da pobre aos seus pés, não deixando nada de troco.
A mulher, se vendo só com criança em berço, fez o que pode. Trabalhou dia mais dia, sem descansar. Tudo parecia barulho sem o silêncio dele. Fez força para morrer, mas não morreu. Fez vontade de cair no mundo, mas não pisou no quintal. Fugia da culpa onde era inocente, sustentava a casa e a dor. O tempo tratou de colocar as coisas em ordem.
A vida é gangorra. A mulher pesava de tanta coisa que carregava dentro, mas de repente se viu lá em cima. O vestido apareceu na sua casa. Vinha acompanhado de uma velha que em nada lembrava a moça de antes. Não trazia um sorriso, mas a cara amassada. Se arrependeu antes tarde do que cedo, pediu perdão pelo feito. Não sabia por onde o homem andava. Ficaram juntos só o quanto seu desprezo durou. Logo que pegou amor ele foi embora. A velha ofereceu o vestido, era só o que sobrara. A mulher aceitou. Tanta renda em tão pouco pano. Pendurou-o na sala, na parede do meio, ao lado do altar de Nossa Senhora.
Ela estava servindo o almoço quando o homem voltou. Ouviu o passo na escada e a respiração forte.
- Mais um prato, mulher.
Não disse qualquer palavra. Obedeceu. O chiado do seu coração foi acalmando. O silêncio dele invadia a casa novamente. Só era cortado, vez em quando, pelo barulho do vento nas rendas do vestido pendurado na parede do meio da sala.
Inspirado no poema "O caso do vestido", de Carlos Drummond de Andrade. http://www.releituras.com/drummond_vestido.asp

5 comentários:

  1. ...juro que me lembrei dos "vermes de sobrecasaca", do mesmo Andrade.

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  2. Essa daí, pela cara, levou porrada mesmo!...

    ..belo texto!

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  3. gostei mais da tua "versão". só faltou mesmo, pra ficar perfeito e completo, as filhas.

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  4. E ainda me faz escutar que o último poeta vivo é o Ferreira Gullar... Ainda não é o Drummond, mas tá no caminho, niel...

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