segunda-feira, 3 de maio de 2010

Dona Palmira estava esquecendo as coisas. Tudo lhe era desconhecido ali. Essas paredes brancas, o programa de auditório dentro da televisão, toda a gente que lhe cercava. O que estava fazendo?
- A senhora está aqui para descansar, não se preocupe com nada. Aqui é a sua casa e somos todos seus amigos. Lembra de mim, né?
Aquela era a sua casa e todos eram seus amigos. É verdade. Levantou-se, precisava de um pouco de ar. O pátio era amplo, por ali muitos verdes se tocavam entre árvores e sombras. Não conhecia aquele lugar, mas devia ser parte da sua casa também. Sentou num banco para descansar.
Dona Palmira via tanta coisa. Via passarinho, borboleta, gente de branco pra lá e pra cá. Viu uma minhoca. Que bonita que era! Andava rebolando pra frente, toda prosa. Resolveu pegar o bichinho, queria ver aquela dança de perto. Foi só a mão se aproximar que a minhoca rebolou-se inteira e virou uma bolinha.
- Ora, veja só! É um tatu-bola! E riu-se toda a Dona Palmira.
Pegou aquele pontinho preto e ficou rolando de um lado para o outro na palma da mão. Fazia cócegas. Parou por um instante, deixou a mão quieta. Viu aos poucos o bichinho se desenrolar, bem devagar, meio desconfiado. Foi-se familiarizando com o terreno desconhecido, rebolando um pouquinho, parando, rebolando de novo, parando mais uma vez.
Aos poucos a mão de Dona Palmira já era a casa do tatu-bola. Acompanhava-o andando por entre as linhas fundas da sua pele. Lembrava de tanta coisa vendo o caminho desenhado por ele, coisas que ainda não tinham nem acontecido. Quando o bichinho chegava na ponta do dedo mindinho e ameaçava cair lá de cima, ela apressava-se em colocar a outra mão para que ele continuasse o rebolado.
Às vezes balançava o braço rápido, de propósito, só para ver ele se enrolar de novo. Mas depois ficava quietinha e o rebolado começava outra vez. Foi assim durante a tarde inteira, até a moça de branco aparecer.
- Vamos para dentro? Já é tarde...
Despediu-se do amigo e colocou-o no chão. Viu a bolinha ir se desenrolando aos poucos e rebolar devagarzinho para longe.
- Amanhã, logo depois do café, você volta para brincar com seu bichinho, tá?
Mas Dona Palmira não se lembrava mais do pontinho preto nem da tarde que havia acabado de passar acompanhando aquele rebolado. Só sentia uma cosquinha gostosa na palma da mão.

3 comentários:

  1. Dona Palmira é uma mulher de sorte. As pessoas deveriam observar mais essas coisas que dizem ser pequenas mesmo...

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