domingo, 18 de abril de 2010


Chamava-se André e não tinha mais que vinte anos. Frequentava a academia todos os dias e namorava uma menina que não era feia. Tinha um cachorro chamado Rex e um lagarto tatuado no braço, logo abaixo do nome da mãe. Tinha também inverteculite ocular rugosa, rara doença que atinge as conexões entre o olho e o cérebro e apresenta como principal consequência o espelhamento da visão. André via tudo ao contrário, como se estivesse diante de um espelho.
O diagnóstico veio um pouco tarde, já na adolescência, o que fez o menino sofrer bastante. Na escola, sempre sentava no canto da sala com enormes orelhas de burro. Enquanto todos seguiam as instruções da professora e levantavam a caneta com a mão esquerda, André esticava o braço direito o mais alto que podia, na esperança de que seria o único certo. Nunca foi.
No grupo escoteiro, André era o pior com nós. Quando o chefe pedia “Lobinhos, cruzem a ponta direita por cima da esquerda e, em seguida, a esquerda por cima da direita”, o menino se embananava todo. Não eram raras as vezes em que amarrava a si próprio naquela confusão. E André escutava as cruéis risadas de todos os colegas.
A história não foi diferente nas primeiras letras. “Esse menino espelha tudo! Parece o Da Vinci!” dizia a professora. E André não conseguia entender aonde errava. Ele escrevia certo, copiava as letras exatamente como as via no quadro, mas aquilo parecia ilegível até mesmo para ele. Um dia teve um estalo. Percebeu que o que a professora queria era exatamente o contrário do que ela pedia. Se ela escrevia no quadro daquele jeito, ele deveria copiar de trás pra frente. Aquilo mudou a sua vida. As coisas que escrevia faziam sentido. Aprendeu a ler com nove anos, depois de inúmeras matrículas na classe de alfabetização.
André cresceu e se adaptou a vida especular. Com doze anos, durante um exame de rotina, o oftalmologista diagnosticou a IOR (inverteculite ocular rugosa). Sua mãe ficou chocada. Como nunca notara isso antes? Para André as coisas fizeram sentido, mas o menino já havia percebido que o mundo a sua volta era um pouco diferente do que ele via. Já havia aprendido a seguir uma outra direção.
Conseguiu aprender a tocar violão e a dirigir. Claro, sempre tinha algum problema para ler as cifras e identificar a direção das curvas que as placas apontavam. Tudo superado depois de algum tempo de adaptação. André era um rapaz normal e não precisava mais usar orelhas de burro ou escutar as risadas dos colegas. Mas um dia as coisas viraram.
Cientistas dinamarqueses haviam descoberto a cura para a IOR, ou Síndrome de Narciso, como gostavam de chamar. Uma pequena intervenção cirúrgica e pronto! O mundo estaria novamente do lado certo. André não se sentiu muito animado, vivia bem daquele jeito, mas sua mãe via no novo tratamento a esperança de ter um filho normal. Seria ótimo contar para as amigas que o rapaz conseguia dar uma informação correta ou usava a mão direita para cumprimentar as pessoas. Sem saída, André aceitou.
Foram sete dias sem enxergar, perdido na escuridão. Quando abriu os olhos, foi como se houvesse nascido novamente do outro lado do espelho. André não sabia mais ler e voltou a não entender o que escrevia. Tudo havia ficado confuso, de pernas pro ar. “É só o tempo de se adaptar, meu filho”, disse a mãe orgulhosa. Ele não queria passar por aquilo novamente. Não queria mais chapéu de burro e risadas. Era inevitável. Precisaria aprender tudo outra vez.
Aos poucos o mundo foi se entendendo com André. Voltou para a academia, ía ao cinema com a namorada novamente, jogava futebol com os amigos. Um dia, em razão de um desses três compromissos, pegou o carro e saiu. Dirigia tranquilamente pela autoestrada.
Olhou pelo retrovisor.
Era o seu mundo ali atrás. Conseguia ler ou outdors, entendia todas as placas. Estava tudo tão certo. Sentia-se em casa. Quando voltou a atenção para a frente, percebeu que dirigia na contramão. Mudou de pista. Qual não foi a surpresa ao perceber que vinha um ônibus em sua direção. Num movimento brusco, jogou o carro para o lado. O motorista teve o mesmo reflexo. Bateram de frente.
André foi preso e condenado por homicídio doloso. Pegou cinco anos. A defesa ainda tentou alegar que o rapaz sofria de IOR, mas a acusação conseguiu comprovar que ele havia feito uma cirurgia reparadora e todos os laudos médicos indicavam a cura. “O mundo é torto” pensou André. Hoje, a única coisa que o conforta é observar de dentro da cela, usando o espelho, a movimentação dos guardas pelos corredores.

7 comentários:

  1. Você mesmo escreveu isso? =O Fantástico.

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  2. "o mundo é torto" e não tem conserto.
    Quanto mais se conserta,mais confuso fica.

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  3. Espantoso! Existem coisas que a gente nem imagina. Eu nem imaginava. O tom objetivo, direto, é às vezes mais expressivo, porque deixa o leitor ter sua própria visão do descrito. Gostei muito.

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