Na Rua Mãe dos Homens morava um preto. Chamava-se José e era propriedade de Romão Pires. Não tinha filhos ou qualquer lembrança de família. Estava ali desde que se entendia por preto e seu compromisso era cuidar da casa. Digo da casa, prezado leitor, mas me refiro diretamente a mestre Romão, como era conhecido publicamente. Vira-o nascer, crescer, casar, enviuvar e fechar-se em si. E hoje via-o morrer.Da cozinha José podia ouvir o som do cravo. Era triste e incessante, como barulho de chicote. E doía nele como chicote. Em nada se assemelhava ao que sempre ouvia durante as missas, onde mestre Romão encantava aos fiéis. Eram dois homens diferentes: o mestre, a quem todos conheciam e louvavam, e Romão, ali na sala, mecânico, se matando a cada nota abafada.
Passou um café e foi oferecer ao seu senhor. Desistiu ao vê-lo. Estava debruçado sobre o cravo. Tinha a face molhada pelo suor, os músculos rígidos. Olhava firme para um caderno e repetia o mesmo som, como uma cigarra anunciando o sol de amanhã. Estava visivelmente esgotado, mas não fazia qualquer menção de parar. Expiava os pecados naquela autoflagelação.
José se sentia fraco. Voltou à cozinha e tomou o café. Pela janela avistou dois jovens. Provavelmente recém-casados, mudaram-se para a casa de trás fazia uma semana. Lembrou-se de quando Romão ainda não era mestre e havia se apaixonado. Casara e fora feliz por dois anos. A morte da esposa o devolvera ao seu mundo.
- Pai José, venha aqui.
José não tinha filhos ou qualquer lembrança de família, mas era conhecido assim. E era assim que se sentia. O pai e a mãe de Romão. Sua família. Foi até a sala e o encontrou tão exausto que naquele momento, por piedade, desejou-lhe a morte.
- Me leve para a cama, Pai José. Não agüento mais.
Na manhã seguinte ele não se levantou. Havia encontrado o descanso que tanto desejara. E o pai preto que morava na Rua Mãe dos Homens sentiu-se órfão. Sentiu-se surdo por nunca mais ouvir o mecânico e triste som de mestre Romão.
Releitura do conto Cantiga de esponsais, de Machado de Assis. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000198.pdf
Passou um café e foi oferecer ao seu senhor. Desistiu ao vê-lo. Estava debruçado sobre o cravo. Tinha a face molhada pelo suor, os músculos rígidos. Olhava firme para um caderno e repetia o mesmo som, como uma cigarra anunciando o sol de amanhã. Estava visivelmente esgotado, mas não fazia qualquer menção de parar. Expiava os pecados naquela autoflagelação.
José se sentia fraco. Voltou à cozinha e tomou o café. Pela janela avistou dois jovens. Provavelmente recém-casados, mudaram-se para a casa de trás fazia uma semana. Lembrou-se de quando Romão ainda não era mestre e havia se apaixonado. Casara e fora feliz por dois anos. A morte da esposa o devolvera ao seu mundo.
- Pai José, venha aqui.
José não tinha filhos ou qualquer lembrança de família, mas era conhecido assim. E era assim que se sentia. O pai e a mãe de Romão. Sua família. Foi até a sala e o encontrou tão exausto que naquele momento, por piedade, desejou-lhe a morte.
- Me leve para a cama, Pai José. Não agüento mais.
Na manhã seguinte ele não se levantou. Havia encontrado o descanso que tanto desejara. E o pai preto que morava na Rua Mãe dos Homens sentiu-se órfão. Sentiu-se surdo por nunca mais ouvir o mecânico e triste som de mestre Romão.
Releitura do conto Cantiga de esponsais, de Machado de Assis. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000198.pdf
Agora faz bem mais sentido, agora eu digo que ficou bom.
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