Ela morava ao lado. Era só pular o muro e pronto! Lá estava a sua casa com caldeirões, sapos e cinzas. Um terreno enorme, com árvores altas, alguns galos e muito escuro. Eu tentava espiar, com cuidado, mas o muro era alto demais, o que na verdade me dava até conforto quando o sol ia embora.Eu nunca vi a bruxa, mas tenho certeza de quela esteve sempre lá. Quando aparecia lixo no nosso quintal, não dava outra:
“- Essa bruxa velha fica jogando as coisas por cima do muro!”
Sempre pensei que ela fazia isso de noite, com auxílio da sua vassoura voadora. Deixava o caldeirão fervendo em fogo baixo e pegava o que sobrou dos ingredientes da poção do dia para jogar no quintal dos vizinhos. Tudo isso enquanto gargalhava pelos ares.
“- Como uma mulher pode ser tão ruim?” - se perguntava a minha vó.
Em minha cabeça isso estava muito claro. Ela era ou não era uma bruxa, oras? Então, nunca vi bruxa boazinha.
Um dia minha mãe acordou e disse:
“-Vou botar essa bruxa na justiça! Ela vai se entender é com o juiz!”
Meu coração deu um pulo, daqueles dobrados, porque foi de alegria e tristeza ao mesmo tempo. Eu havia aprendido na escola o que a justiça fazia com as bruxas. Depois do julgamento elas eram queimadas em fogueira quente! Ora, jogar lixo na casa dos outros não é nada legal, mas também não é motivo pra queimar ninguém, né?
Ela não foi queimada.
“-Essa bruxa vai me atormentar a vida inteira!” – dizia minha vó, depois minha mãe.
Hoje muito tempo se passou, consigo até olhar por cima do muro, mas a bruxa foi embora. Talvez pra outro terreno maior e com mais lixo, talvez pra bruxolândia. O certo é que dessa batalha, entre a minha vó e a vizinha bruxa, só eu sobrei pra contar a história.
Eu acho que se houvesse um duelo, a vó ganharia fácil.
ResponderExcluirEla mudou pra casa nº71 da Vila do Chaves...
ResponderExcluirahh, eu adoro as suas histórias!
ResponderExcluire vc morria de medo da bruxinha hahahaha
ResponderExcluir